Exercício e Cancro

Estima-se que o corpo humano seja constituído por vários milhões de biliões de células que funcionam em constante harmonia para o manter vivo. O seu interior está dividido em diversas partes (organelos) que desempenham diversas funções (ex: formação de energia, formação de proteínas…) sendo por isso, considerada a unidade básica e essencial da vida.

Diariamente são formadas cerca de 330 biliões, correspondendo a aproximadamente cerca de 1% das células corporais totais. Quer isto dizer que a cada 100 dias todas as células corporais terão sido renovadas. Assim, é necessário ocorrer um período de multiplicação celular com consequente crescimento e maturação, mas também apoptose (morte celular) quando deixam de ter capacidade para desempenhar as suas funções normais. No entanto, podem existir mutações que alteram o normal processo de crescimento e maturação celular e que contribuem para um desenvolvimento anormal das mesmas levando à formação de tumores que podem ser classificados como benignos, de progressão lenta, ou malignos (cancro), de rápida progressão e com capacidade para se desenvolverem noutros tecidos formando metástases.

O cancro da mama, pulmão, colon e próstata foram os mais prevalentes no ano de 2020 no entanto, foram os cancros do pulmão, colon, fígado e estômago que mais contribuíram para o número total de óbitos por esta causa. Na mulher, o cancro da mama é o mais comum enquanto no homem o cancro da próstata é o mais prevalente. Nos dias de hoje, o cancro continua a ser considerado como uma das principais causas de morte a nível mundial com novos recordes anuais no que respeita aos números de diagnóstico e morte.

Existem vários fatores que podem contribuir para a o crescimento anormal das células tais como fatores intrínsecos ao individuo (genéticos) e não modificáveis, bem como fatores ambientais/comportamentais e modificáveis (ex: tabaco, alimentação, inatividade física, exposição a vírus, raios ultravioletas). Estes últimos estimam-se serem responsáveis por cerca de 35-50% de todos os diagnósticos e óbitos de causa oncológica.

Entre os diferentes fatores modificáveis, importa referir que a obesidade, estando relacionada com a inatividade física e alimentação, é um fator de risco muito importante que se associa a uma elevação dos níveis inflamação sistémica, assim como a uma alteração do sistema imunitário que tem um papel fundamental no controlo e progressão do tumor.

A relação entre cancro e atividade física é um tema que está muito bem documentado na literatura. Os benefícios da prática exercício físico na prevenção, controlo e recuperação do cancro são inúmeros. Autores demostraram que a realização de programas de exercício contribui para uma redução do risco de desenvolver cancro assim como a redução do risco de recidiva e mortalidade após diagnóstico. Maiores níveis de atividade física foram associados com a redução do risco de desenvolver 13 de 26 tipos de cancro sendo que em 7 a redução foi superior a 20% assim como também se verificou uma redução de 37% do risco de mortalidade após o diagnóstico.

Não são claros os mecanismos explicativos do exercício no controlo e progressão da doença, no entanto, este atua essencialmente no controlo dos fatores de risco comportamentais tais como o controlo da obesidade através do aumento do dispêndio energético, permite manter os níveis de funcionalidade física e parece ter um papel fundamental na regulação de alguns sistemas (ex: metabolismo, sistema imunitário) uma vez que a contração muscular contribui para a libertação de várias substâncias reguladoras (mioquinas) que atuam em diversas partes do organismo humano.

A abordagem de tratamento até à data tem sido direcionada essencialmente para terapias medicamentosas e radiológicas que atuam com o objetivo de regularem os vários sistemas do organismo humano. Por isso, é importante adotar estratégias complementares que permitam contribuir para a regulação desses mesmos sistemas.  O exercício físico regular e corretamente orientado com o objetivo de melhorar a saúde e a aptidão cardiorrespiratória pode ser uma das estratégias complementares a ser adotada. Além dos benefícios diretos, a prática de exercício físico permite ainda atenuar os efeitos secundários em pessoas com cancro. Por exemplo, sabe-se que osteoporose é um fator de risco para pessoas com cancro muito devido à exposição a sessões de radio e quimioterapia que pode trazer consigo outras consequências futuras.

No que diz respeito à prática de exercício físico em pessoas diagnosticadas com doença oncológica, é sempre importante ter em conta fatores como as limitações físicas que a pessoa apresenta, o tipo de cancro bem como a zona onde foi detetado, os sintomas secundários ainda apresentados e, entre outros, o tempo de decorreu entre o diagnostico e tratamento, e o início da prática. Em termos práticos, sabemos que o exercício ajuda na redução das limitações de amplitudes articulares do braço em pessoas que tiveram cancro da mama. Em suma, torna-se importante reforçar que a prática de exercício fisico é, sem dúvida, um fator de prevenção do cancro pela primeira vez, mas também uma peça fundamental na recuperação e prevenção de novo aparecimento devendo ser um objetivo primordial em pessoas que tiveram cancro.

Referências

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